Editor's Note: I was honored last year to be on the jury to select the winners of the most important yearly photojournalism prize in Portugal (Bolsa Estação de Imagem| Mora). Part of the responsibilities of the jury was to review many applications for a grant to create a new body of documentary photography. We members of the jury selected the proposal of photographer Antonio Pedrosa. We are absolutely delighted with the resulting project, which we present here. The texts below include the original proposal for the project, plus the summary text after the project was completed. We hope to find someone to translate this Portuguese text and captions into English so a broader, worldwide audience can appreciate the nuances and subtleties of this important story. The full project is on display in Mora opening April 19, 2014.


Caça grossa

“Estamos a atravessar tempos difíceis” afirmou Jacinto Amaro, presidente da Federação Portuguesa de Caça (FENCAÇA).

Mas estes tempo difíceis são só para a caça tradicional. Aquela que é a caça grossa, dos javalis, gamos, veados, corços e do muflão continua sem sentir a crise.

A caça tradicional, em terrenos associativos, sofre fortemente os efeitos da crise, com a quebra da capacidade financeira dos caçadores. Com o aumento do desemprego e diminuição do poder de compra muita gente abandona a atividade da caça, transformando-a num desporto de ricos. De 350,000 caçadores há alguns anos passou para cerca de 150,000 atualmente.

Mas ao mesmo tempo a caça grossa (em propriedades com centenas de hectares onde são criados animais para a caça) com valores a pagar sempre acima de 250 euros podendo chegar a 5000 euros nos cercons continua a achar clientes, muitos vindos de países estrangeiros. O número de caçadores de caça grossa aumenta para cerca de 30,000.

Para alguns proprietários é mais rentável produzir javalis e fazer este tipo de caçada de dois em dois anos do que estar a criar porcos ibéricos, vacas ou ovelhas. Além disso certas espécies, como a lebre o coelho e a perdiz praticamente desapareceram de algumas regiões, pelo que hoje as pessoas voltaram-se para a caça maior.

No panorama nacional de caça o Alentejo representa a melhor zona, com maior variedade cinegética. Nesta região encontra-se desde a caça à lebre, à perdiz, ao veado e ao javali. E também aqui se encontram os grandes latifúndios onde apenas alguns caçam os animais que ali são criados.

A Bolsa possibilitaria documentar os diversos tipos de caça em Portugal, e como se dividem durante o ano. Desde a lebre, aos tordos, ao javali, a raposa e ao veado. Possibilitaria também perceber quem tem acesso aos recursos cinegéticos em Portugal, e a respectiva divisão social.

Será que a caça é factor de desenvolvimento rural e de manutenção da diversidade biológica? Será a caça um desporto de ricos? São estas das perguntas que gostaria de desenvolver com o meu projecto “Caça Grossa”.

— António Pedrosa, 2013

A pose e a presa

“Arte” ou “acto”, segundo o dicionário, a caça no meu imaginário sempre foi mais fotografia que taxidermia como se a presa fosse apenas um mero acessório da pose do caçador – o verdadeiro troféu.

Quando decidi documentar o quotidiano dos caçadores portugueses veio-me instantaneamente à memoria o “cliché” do fotógrafo J.A. da Cunha Moraes, captado durante uma caça ao hipopótamo no Rio Zaire, em Angola e publicado em 1882 no álbum Africa Occidental. O grande caçador branco posava, ao centro da fotografia, com a sua espingarda, rodeado pela tribo local.

Foi com este cliché que cheguei ao Alentejo em busca dos grandes caçadores contemporâneos. Durante meses a fio, de Mora a Mértola, passando por outros concelhos alentejanos, vi veados, javalis, raposas e corças. Fotografei montarias em zonas de caça associativa e em herdades privadas, caçadores ricos e remediados. Caçadores de carne e caçadores de troféu. Fotografei quem vive da caça e quem a vê como um hobby para alguns fins de semana durante o ano. Acompanhei os diversos tempos e momentos de uma caçada, entre a pose e a presa, o vinho e o sangue, o estampido dos tiros e o murmúrio dos campos.

Logo nos primeiro dias, durante uma “enxota” ao javali nos campos de milho de Montemor-o-Novo, tive a sorte de cruzar-me com o José António, mais conhecido por Berras, dono da matilha Tempestade de Mora. A personalidade, conhecimentos e experiência deste caçador e do Nelson, o seu ajudante e amigo, levaram-me a segui-los ao longo de várias caçadas.

Tive sorte, ouvi histórias de caça, da boca de caçadores conscientes mas também da boca daqueles para quem só importa a quantidade. Encontrei uma população envelhecida, essencialmente masculina, onde os jovens são minoria. Uma espécie ameaçada pelo envelhecimento e pela perda de poder económico, em especial entre os que se dedicam à caça menor.

O resultado deste aparente reencontro, à vista desarmada, é esta série de imagens. Distante do cliché de 1882, na mira da objectiva, o fotógrafo, face a homens com espingardas na mão, não se deixou “caçar” nem pela pose nem pela presa.

— António Pedrosa, Março, 2014

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