Arqueologia Intima
O projeto "Arqueologia Íntima" é uma proposta artística de autorretratos que busca explorar a
complexa relação entre o corpo humano e o passar do tempo. Através de técnicas fotográficas do
século XIX, como cianotipia, albúmen, papel salgado entre outras, busco os vestígios de
experiências, histórias e transformações que marcam nossa existência individual e nos tornam
únicos. Ao mesmo tempo trazendo à tona reflexões sobre a condição humana em seu aspecto mais
universal.
O conceito de arqueologia íntima se refere à escavação das camadas mais profundas da nossa
própria história pessoal, semelhante ao processo arqueológico que busca desvendar segredos do
passado por meio de vestígios encontrados em sítios arqueológicos. No contexto contemporâneo, a
busca pela compreensão de nós mesmos tornou-se mais relevante do que nunca. Em uma era onde
as relações superficiais e a desconexão parecem prevalecer, é fundamental que nos reconectemos
com nossas próprias raízes e nos confrontemos com a própria identidade em constante evolução.
A escolha das técnicas do século XIX para a realização dos autorretratos é intencional. Ao utilizar
essa abordagem, a materialidade da fotografia transcende o mero registro do presente, adquirindo
uma dimensão mais profunda. A própria substância química reage com a luz, deixando marcas
únicas e imprevisíveis, assim como as experiências que moldam nossas vidas. O resultado é uma
representação simbólica das marcas do tempo em nosso corpo, capturando não apenas a imagem,
mas também a essência do que significa ser humano.
Optei por esse caminho pois ele me possibilita usar a materialidade do suporte fotossensível para
abrir discussões sobre os limites dados ao que denominamos fotografia. Ao deixar o gesto do pincel
marcado na imagem, característico da pintura, ou ao escolher um suporte tridimensional para a
imagem, os limites entre o que é fotografia, pintura ou escultura se misturam.
O objetivo do projeto "Arqueologia Íntima" é mergulhar nas complexidades da identidade humana e
convidar o espectador a refletir sobre sua própria trajetória pessoal. Além disso, pretendo desafiar
estereótipos e tabus relacionados à nudez e à vulnerabilidade, destacando que nossa intimidade não
é algo a ser escondido, mas sim explorado como parte essencial de nossa existência.
Ao compartilhar meu autorretrato ao longo do tempo, busco inspirar um diálogo franco sobre as
transformações que enfrentamos como indivíduos e como sociedade. A partir dessa narrativa visual,
o projeto visa estabelecer uma conexão empática com o público, incentivando a aceitação de nossas
imperfeições, cicatrizes e metamorfoses, e celebrando a beleza encontrada em nossa autenticidade.
Em tempos de individualismo exacerbado pelas redes sociais e da busca constante por padrões
inatingíveis de perfeição, "Arqueologia Íntima" emerge como um convite à reflexão e à aceitação da
jornada do corpo e da alma. O projeto resgata a essência humana, aproximando-nos do que
realmente somos e do que compartilhamos como seres únicos e interconectados.
Por meio dessas imagens, pretendo instigar debates sobre a importância da valorização de nossa
própria história e experiências, bem como promover uma discussão sobre as questões de identidade
de gênero, empoderamento corporal e aceitação da diversidade em todas as suas formas.
O projeto "Arqueologia Íntima" almeja contribuir para a contemporaneidade ao abrir espaços para a
empatia, o autoconhecimento e a compreensão mútua, afirmando que cada ser humano é uma
arqueologia viva, cujas cicatrizes e metamorfoses contam histórias de resiliência, superação e
evolução.