Sob um sol recto
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São Paulo
em corte

Foram três meses perambulando pela cidade, com
tripé e câmera nas costas, exausto do peso de ver, no labirinto
dos labirintos: São Paulo, que ninguém ousa dizer
que conhece, uma abstração até para quem nela nasceu
e vive, para os taxistas, que ou não se arriscam por
algumas zonas da cidade, ou nelas só se lançam guiados
pelos batedores impressos e eletrônicos, os guias de
ruas e aparelhos de gps, cujo tom objetivo e sentencioso
encobre a ignorância dos detalhes, nessa monstruosa e
magnífica construção constituída de detalhes.
Diversamente das cidades europeias, com as quais o
português André Cepeda tem lá sua intimidade, São
Paulo é um compósito de matérias, tempos e espaços.
Não prevalece plano, lógica ou ordem arquitetônica,
nada a não ser a sobreposição de sobras, cada uma compondo
o ruído branco da confusão, o som ininterrupto
da máquina de construir e destruir, pródiga em negociações
mal-ajambradas, como na imagem de uma empena
cega e suja, a traseira abrutalhada de uma edificação
qualquer, em que vêm se grudar, por intermédio da geometria
mambembe do piche isolante, três construções
capengas. A imagem não se reduz à matéria sórdida da
metrópole, é notável o apuro cromático, a delicadeza
da composição, as gradações do azul-acinzentado das
paredes, das telhas de amianto e das calhas de alumínio,
um fluxo sóbrio interrompido por filamentos vermelhos
sutis, cor que aparece com ênfase na parede de
tijolos cerâmicos.
O artista faz o inventário dos pormenores, invisíveis
em sua maioria, e descobre uma São Paulo magnífica,
como a fruta apodrecida sobre a mesa. A luz amarela desprende
da pele ulcerada desse pequeno mundo estertorante
em duas tonalidades de ouro: a mais clara pertence
à superfície que ainda resta madura; a mais escura, um
ouro-velho, provém das escaras que nela vão se abrindo.
Aqui e ali afloram os brancos bordados dos mofos.
Do íntimo ao máximo, da morte à celebração do
poder, o artista recorta a antiga sede do Banespa, orgulho
da engenharia local e dos paulistas, que foi por
quase 20 anos o edifício mais alto da cidade. Em sua
investigação obsessiva, que inclui novos pontos de vista,
Cepeda subiu num prédio vizinho para construir
a imagem de um arranha-céu sem limites, eficaz no
modo como se impõe à massa liliputiana que lhe serve
de fundo. O amarelo ganha a estridência própria à
aplicação de mertiolate, e a paisagem urbana reduz-se
a um conjunto revestido por uma pátina ferruginosa,
da qual se eleva uma nuvem de poeira, bela como a
atmosfera dos planetas inabitáveis.
Nesta mesma cidade, há um pequeno ninho de corujas
cavado no chão. Uma surpresa amplificada pelo
modo característico como elas miram o fotógrafo. Mais
ainda porque são seis olhos, três corujas, uma delas
filhote. Prova de que a vida segue seu curso, ainda que
contida, calada, como a árvore com raízes recobertas por
um manto de cimento, impedida de beber as águas das
chuvas, mesmo quando correm abundantes e desenfreadas
pelas ruas encapadas, ou quando transbordam dos
rios e regatos que despertam nas temíveis tempestades
de verão. A essa sistemática clausura da natureza corresponde
a irisada variedade de fachadas cegas, grades,
guaritas, gradis, cercas e muros. São Paulo é das cidades
que mais contribuem com soluções de proteção e segurança,
que só aumentam o sentimento de insegurança.
Às vezes, a vida chega em versões alegóricas, como a
copa da palmeira no cimo de uma fachada cor-de-rosa,
que progride em dégradé até o azul. Em outra imagem,
a palmeira, agora in natura, estabelece um diálogo
imprevisto: um cacho preguiçoso de frutos cor de cobre
reverbera no rosa fechado e cinza das fatias de pedra
que revestem um edifício, quebrando, com sua luz e
sombra, a regularidade do desenho.
São Paulo é seus habitantes, cada um deles inescrutável
como as vistas e os fragmentos da cidade, do tijolo
corroído aos pátios silenciosos, à igreja que sobrevive
encaixada entre os prédios altos. Com seu halo de mistério,
o homem sério nos fita com um olho enquanto o
outro está submerso na penumbra. O roxo-escuro da
camisa e a iluminação lateral acentuam sua presença
compacta, ao mesmo tempo em que reforçam os traços
do rosto, os fios grossos do cabelo grisalho, e irradiam
pelas paredes do quarto, indicando a imantação
recíproca entre ele e o ambiente. Como acontece com
a cidade lá fora. ///

Agnaldo Farias, São Paulo, 2013