Proponho um texto do Sr. Eder Chiodetto ; curador do MAM-SP.
“Vida”
“A luta se resolve no poema, com o triunfo da imagem que abraça os contrários sem aniquilá-los.” (Octávio Paz)
Uma fotografia é sempre a resultante da confluência entre a objetividade da câmera e a subjetividade do fotógrafo. Dessa forma toda expressão fotográfica encerra um embate silencioso entre um objeto - partícula do mundo visível -, e um sujeito - ser animado pelo desejo. Entre o que se vê e o que se deseja representar está assentada toda a história da fotografia.
“Vida”, o ambicioso projeto fotográfico de Jair Lanes, parte de uma referência objetiva para a partir dela deixar que sua subjetividade transfigure o real dotando-o de formas difusas, cores instáveis e composições que deixam nossa percepção sob suspensão. É a primazia do sensorial.
Há ressonâncias claras em “Vida” do movimento pictórico que teve seu auge entre os anos de 1890 a 1914 na Europa. Movimento marcado pela aproximação da fotografia aos cânones da pintura, o pictorialismo serviu tanto para que a linguagem fotográfica se libertasse do papel de mera documentação do mundo e alçasse vôos em outras direções, como para emperrar por algum tempo a busca de uma forma de expressão mais autônoma, o que aconteceria logo depois.
Essa reificação do pictorialismo que temos em “Vida” é flagrante de um retorno à necessidade de uma nova fuga da apreensão mecânica do espaço visível. Cego de tanto ver, o homem contemporâneo precisa re-significar a paisagem para captá-la na essência. Para ingressar nessa paisagem sensorial, Lanes nos propõe uma viagem por um mundo transfigurado na sua visualidade, onde os assuntos rumam para uma espécie de síntese que ocorre por meio das formas que tendem a diluição.
O atalho para a apreensão não das imagens, mas do tempo e das práticas cotidianas que elas expressam, passa necessariamente por um certo distanciamento dos temas, como se para apreender a sensação do que se vê fosse necessário o movimento contrário de desprender-se. Aqui o olhar não serve como confirmação da existência das coisas, mas como propulsor capaz de nos conduzir a mundos imaginários.
O olhar oblíquo que Lanes lança ao mundo, tendo por testemunho uma prosaica Polaroid, busca atingir o âmago da expressão ao mesmo tempo apontando e se desviando do assunto fotografado. É preciso enxergar tais imagens para além do alcance habitual das nossas retinas para fazer, enfim, aflorar uma visão de viés, os olhos da percepção que podem vislumbrar em plenitude aquilo que já se esvaiu do campo focal dos nossos olhos embotados pelo excesso de imagens a que somos submetidos diariamente. Para enxergar em profundidade é necessário deixar de ver o apenas aparente, a epiderme do mundo visível. Trata-se de uma opção voluntária e paradoxal de optar em ver a luz num estado de quase cegueira, pela renúncia do olhar clássico.
Ao obstruir a objetividade da câmera, Lanes fez do equipamento a extensão do seu olhar, mas também de sua subjetividade latente. “Vida” surge com seus imprecisos e belos contornos do encontro entre um olhar que dilui o mundo aparente e outro que o restaura pelo imaginário. Assim é “Vida”. Assim deveria ser a vida.
Eder Chiodetto, curador do MAM-SP