Nas ruas de Moçambique contemporâneo constata-se o paradoxo claro entre os elementos capitalistas omnipresentes de uma parte, e referências à revolução (armada) e à ideologia marxista-leninista, ora abandonada, da outra parte. Estátuas e murais alusivos à revolução parecem contrapor-se a cartazes de publicidade à Coca-Cola e à Vodacom, embora se pergunte quanto tempo isto permanecerá assim. O fundador da Frelimo, e protótipo de um líder moderno da oposição, Eduardo Mondlane, enquanto figura histórica, está a cair no esquecimento. O seu rosto deixou de figurar nas notas do país e a estátua com a sua efígie sofre uma lenta decadência. O destino da estátua e reputação do seu sucessor, Samora Machel, é completamente diferente. O actual governo da Frelimo colocou réplicas exactas em todas as capitais provinciais, e uma réplica gigante da estátua foi inaugurada na capital, Maputo. Deste modo, o revolucionário Samora Machel evoluiu para se tornar a figura mítica de um estado capitalista moderno.
Em 1997, visitei o Museu da Revolução in Maputo. Enquanto estudante de história, as exposições alusivas à luta pela independência suscitaram um grande fascínio. O funcionário era um antigo combatente, com roupas esfarrapadas, que serviu de guia a este singelo visitante deste museu em estado de degradação deplorável. Os largos anos de guerra civil entre a Frelimo e Renamo não permitiram que o edifício fosse restaurado. Desde a sua abertura em 1978, parece ter parado no tempo.
A conversa com o funcionário inspirou-me a ler Lutar por Moçambique (1969) onde o autor, o fundador da Frelimo Dr. Eduardo Mondlane, descreve as origens da luta pela independência. As impressões do museu e da obra de Mondlane serviram de prelúdio para a minha tese de mestrado intitulada A Dupla Libertação (1999), que lidava com o papel da mulher na luta pela independência em Moçambique.
Foi só seis anos depois que tomei conhecimento da obra fotográfica do jornalista holandês, Frits Eisenloeffel (1944-2001) que, já nos anos sessenta do séc. XX, adquira um interesse no estado fascista português e suas colónias. Após prolongadas guerras coloniais, o controlo estava a desfalecer e faltaria pouco para Portugal perder o domínio dos territórios do ultramar. Os efeitos gravosos das guerras coloniais impulsionaram a Revolução dos Cravos em 1974. Este golpe de estado sem derramamento de sangue por soldados de vários grupos progressistas esquerdistas, pôs fim à era fascista. Logo após estes eventos, Eisenloeffel viajou em transporte militar para Moçambique e Guiné-Bissau como jornalista para relatar sobre a independência iminente para jornais e revistas da esquerda, entre eles o het Parool e, em particular, o de Groene Amsterdammer.
Em Moçambique, o órgão de relações públicas da Frelimo aproveitara ao máximo o meio fotográfico durante anos. As fotografias tiradas em território libertado eram utilizadas para publicitar os sucessos militares da Frelimo e a mudança da situação política, social e económica à comunidade internacional. Em simultâneo, vários fotojornalistas moçambicanos e estrangeiros, demonstravam a sua solidariedade ao propagar os ideais da independência no estrangeiro nos países socialistas e ocidentais. Contudo, embora defendesse veementemente o movimento da independência, Eisenloeffel nunca se tornou um fantoche da Frelimo. A pedido da sua viúva, Immeke Sixma, passei mais de um ano a estudar a obra fotográfica de Eisenloeffel. Do arquivo contendo mais de 30.000 fotografias, foram seleccionadas e catalogadas 3.000. As fotografias tiradas em Moçambique representam apenas uma pequena parte do arquivo e pertencem ao primeiro trabalho de Eisenloeffel.
Depois de receber instrução na arte da fotografia de Paul Staal e do seu primo, Koen Wessing, a quantidade e a qualidade da obra de Eisenloeffel melhorou. Nos anos setenta do séc. XX, Eisenloeffel trabalhou predominantemente na África lusófona e na África austral. Nos anos oitenta, voltou as suas atenções para o corno de África.
A catalogação da obra de Eisenloeffel foi o estímulo para a minha deslocação a Moçambique em 2013 e a resultante obra `Procurando M´. O conceito adoptado em ´Procurando M` é uma partida consciente da metodologia jornalística tradicional, tratando-se de uma abordagem pessoal e quase anacrónica em que as sinergias substantivas e estéticas são criadas entre as obras artísticas de dois fotógrafos holandeses trabalhando em períodos diferentes. O reenquadramento das imagens de Eisenloeffel resulta em realidades alternativas na qual a actual realidade histórica desempenha um papel contínuo e crucial. Isto foi reflectido nas muitas reuniões que tive com pessoas de todos os estratos sociais. As suas opiniões e histórias, conjugadas às nossas imagens e reconstruções do passado, criam um documento visual que oferece uma ideia do desenvolvimento vivido em Moçambique nas últimas décadas.
Ben Krewinkel
Haarlem 2014